Terça, 23 de novembro 99

JORNALISMO

“Le Monde Diplomatique” terá edição no Brasil

Durante três semanas, você deixou de receber a “Resenha da Internet”. A edição de hoje, que encerra este breve silêncio, é ao mesmo tempo uma explicação e um convite. Dia 9 de dezembro - uma quinta-feira - será lançada em São Paulo a edição brasileira do jornal “Le Monde Diplomatique”. A presença de Bernard Cassen, diretor da publicação e presidente do ATTAC na França, está confirmada. Editado em Paris desde 1954 e traduzido para oito idiomas, o “Diplô”, como é mais conhecido, é uma espécie de símbolo de informação profunda e confiável, de jornalismo sem concessões à superficialidade e ao sensacionalismo. Além disso, transformou-se, nos últimos anos, num dos polos intelectuais da resistência ao neoliberalismo e do debate das alternativas. Ao assumir esta condição, formou uma equipe de redatores e colaboradores que inclui gente como Ignácio Ramonet, Noam Chomsky, o subcomandante Marcos, José Saramago, François Chesnais, Ivan Illich, Ahmed Bem Bella, Eduardo Galeano e Samir Amin. De suas páginas saíram expressões mordazes, como “pensamento único”, e propostas ousadas, como a criação do ATTAC. Faltava tê-lo no Brasil, onde a enorme insatisfação com o projeto que o governo FHC encarna ainda não resultou no renascimento indispensável da mobilização política e cultural. Ficou pronto nos últimos dias o plano de viabilização que convida a dar este passo. Integrada a esse esforço, a “Resenha” vai apresentá-lo em detalhe, nas próximas edições.

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Um projeto que rejeita os monopólios

Sem apoio de quem controla o poder, o dinheiro ou a infomação, a edição brasleira buscará forças na diversidade. O esquema de viabilização não prevê, na primeira etapa, uma edição autônoma em papel. O "Diplô" será traduzido, revisto e oferecido a jornais já existentes, que vão incluí-lo em suas edições. Haverá dois circuitos paralelos. Um primeiro, cujo objetivo é assegurar a difusão mais ampla possível, será formado por jornais comerciais. Já neste universo rejeita-se o monopólio. Ninguém -- nem mesmo os órgãos que circulam em todo o país -- obterá direitos exclusivos para o território nacional. A edição brasileira terá um parceiro em cada estado. Há negociações em andamento em São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Paraíba e Espírito Santo. Unida ao "Diplô" brasileiro por idéias e objetivos semelhantes, e não-concorrente com os jornais tradicionais, a revista "Caros Amigos" é uma associada especial ao projeto. Sua edição de dezembro vai inaugurar as parcerias da edição brasileira.

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Ao lado de quem resiste e busca alternativas

A novidade maior está, porém, está no segundo circuito. Além dos jornais comerciais, poderão estampar as matérias do "Diplô" as publicações dos movimentos sociais. Criadas para difundir informações que a "grande" imprensa não divulga, ligadas entre outros a sindicatos, ONGs, igrejas, universidades e partidos pogressistas, elas são um dos melhores resultados das lutas e dos esforços para elaborar um projeto nacional, que marcaram os anos 70 e 80. Atingem ainda hoje uma tiragem impressionante. Seu conteúdo editorial está, em geral, voltado para temas específicos dos públicos a que se destinam. Reproduzir o "Diplô" lhes permitirá somar a esta pauta o debate cada vez mais necessário sobre a globalização. Ligada claramenete ao projeto político de construir alternativas, a edição brasileria oferecerá aos movimentos sociais condições muito facilitadas.

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Um olho e um pé na Internet

A cada mês, o "Diplô" publica cerca de vinte matérias. As parcerias no Brasil serão muito flexíveis quanto ao volume ser reproduzido pelos jornais associados, à seleção de matérias e á apresentação gráfica. Exige-se apenas reprodução integral e fiel dos textos, que serão encimados pela logomarca da edição brasileria. Haverá porém, e desde o início, uma alternativa para os leitores interessados em ler ao jornal inteiro. Ele estará disponível, mediante assinaura acessível, numa página Internet. O desenvolvimento gráfico e de programação foi confiado à That's Internet, que alia competência técnica a compromisso com a transformação social e a imprensa crítica. O "Diplô" eletrônico também será apresentado, em primeira mão, no dia 9 de dezembro.

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Pronta a edição número zero

Além de celebrar o surgimento da edição brasileria, e de expor a versão Internet, o ato do dia 9 marcará o início da circulação do número zero. Ela traz um pouco do que o "Le Monde Diplomatique" publicou de melhor, nos últimos anos. Servirá para mostrar a importância da publicação, para todos os que se empenham em combater o pensamento único. Inclui textos sobre a "Rodada do Milênio", biotecnologia e transgênicos, jornalismo crítico, fatos destacados da conjuntura internacional. Entre suas atrações estão o relato de um encontro entre o subcomandante Marcos e o escritor espanhol Manuel Vazquez Montalbán e uma das intervenções do debate histórico entre jornalistas do "Diplô" e do "Financial Times", realizado em 1998, em Londres. A pauta completa do número zero está no site da "Resenha" (www.resenha.com.br), seção "Especial". O acesso a ele será gratuito. Já no dia 9 de dezembro, será possível fazer assinaturas para a edição eletrônica, que começa a circular em fevereiro.

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Espaço para a inteligência brasileira

Na fase inicial, em que ainda não haverá edição autônoma impressa, o "Diplô" brasileiro trará a tradução dos textos publicados no original francês. A preocupação de difundir o pensamento e o trabalho de intelectuais e jornalistas brasileiros estará, porém, viva desde este primeiro momento. Sairão, com periodicidade ainda indefinida, cadernos especiais impressos, sobre temas de grande relevância. São inspirados numa publicação semelhante mantida pelo "Le Monde Diplomatique" na França (o "Manières de Voir"), mas terão textos produzidos no país. Permitirão tratar em profundidade temas ligados à realidade brasileira. Ao fazê-lo, estreitarão ainda mais as relações do "Diplô" com os movimentos sociais e as forças progressistas. Serão possíveis, por exemplo, co-edições, que tratem de assuntos como o Mercosul, as ameaças à Petrobrás e ao Banco do Brasil, os transgênicos, os riscos de dolarização da economia, o agravamento das condições de vida nas periferias dos grandes centros urbanos e tantos outros.

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Uma iniciativa em que cabe você

Não será possível construir um mundo e um país novos sem enfrentar o controle da informação, que os "jornalões" e a TV hoje praticam. É uma tarefa imensa, onde todos os esforços são bem-vindos. Parte deste trabalho, a edição brasileira do "Diplô" está aberta a todos os tipos de colaboração. Para que o jornal possa sair, formou-se uma sociedade civil constituída por cerca de dez pessoas interessadas há tempo no projeto. Diversas opções estão em estudo para ampliar rapidamente este universo: entre elas, a constituição de cooperativa, ou um grupo de amigos do "Le Monde Diplomatique". Além dessa, haverá outras formas de participação. A "Resenha" será um canal para divulgá-las. Entre hoje e 9 de dezembro, diversas edições semanais informarão sobre cada um dos aspectos da proposta. Para fazer comentários, esclarecer dúvidas ou enviar todo tipo de sugestão, você pode, desde já, comunicar-se com os editores, pelos telefones (11) 3865.7286 e 263.5049, ou pelo email mailto:diplo@that.com.br. Sinta-se em casa, e até o lançamento!