Domingo, 19 de dezembro de 99

SURPRESAS & ALTERNATIVAS

Está no ar o Diplô-Brasil

A vida adora pregar peças em quem acredita demais na relação entre progresso material e avanço cultural. Um exemplo é este ano de 1999, do qual bebemos os últimos goles. Estamos certamente muito mais pobres - e, no entanto, somos bem mais livres... No Brasil, o fim do Plano Real transformou em pó a idéia, tola e sobretudo desumanizadora, de que o mercado mundial nos levaria ao desenvolvimento, e era portanto inútil perder tempo com a formulação de um projeto nacional. No plano internacional, já há dois anos ninguém sério associava neoliberalismo a esperança. A batalha de Seattle é um grande passo adiante. Dispostos a radicalizar a globalização e o ataque aos direitos sociais, à natureza e à soberania das nações, os neoliberais estimularam as diversas tribos que resistem e procuram alternativas a agir em conjunto. Este novo internacionalismo, e sua estréia com uma vitória memorável, são provavelmente as melhores notícias do final do século. Ao lançar sua última edição do ano, a Resenha da internet anuncia com prazer uma pequena novidade, que talvez ajude a alimentar este possível renascimento da utopia. Está no ar, em www.diplo.com.br, a edição brasileira do Le Monde Diplomatique.

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Textos profundos, leitura agradável

Apresentada em primeira mão a dezenas de pessoas que compareceram, no dia 9 de dezembro, ao lançamento do jornal, a versão eletrônica passou em seguida por uma revisão completa e recebeu acréscimos. Reúne as matérias do número zero da edição brasileira - elas próprias um convite à aventura de pensar um mundo novo. Mas traz surpresas também na forma gráfica. Desenvolvido pela That's Internet, o site do "Diplô" explora ao máximo o potencial da rede de computadores para difusão de um pensamento crítico e transformador. A qualidade estética segere que examinar em profundidade os temas atuais exige esforço, mas pode ser uma ação agradável. Além disso, um conjunto de soluções criativas permite localizar com facilidade as matérias de cada edição e imprimi-las num formato que facilita a leitura.

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Do que escapamos em Seattle

O número zero contém uma seleção de alguns dos melhores textos publicados pelo "Diplô" nos últimos quatro anos. A edição destaca, como não poderia deixar de ser, a tentativa frustrada de deflagrar a "Rodada do Milênio". A chamada é instigante: "Por que comemorar o fracasso da OMC em Seattle". Um texto de atualização, produzido pelos editores brasileiros, comenta o sentido dos acontecimentos de Seattle, e introduz dois artigos de Susan George. Seu valor é extraordinário. Eles expõem, em minúcias e com base em documentos, os propósitos dos apoiadores da Roubada. Num país em que os "grandes" jornais recusaram-se até mesmo a informar corretamente sobre o tema, Susan é leitura obrigatória.

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Quatro respostas desconcertantes à globalização

As matérias do número zero estão divididas em três grandes blocos: "Globalização, resistências e alternativas", "Conjuntura internacional" e "Sociedade, Cultura, Mídia e Ciência". Além dos textos sobre a Roubada?, quatro outros artigos compõem o primeiro grupo. Ignacio Ramonet, propõe, no editorial Desarmar os Mercados, a tributação das transações financeiras. O sucesso deste artigo, publicado em dezembro de 1997, levou à criação do ATTAC. Bernard Cassen, diretor do "Diplô", insinua (Por uma sociedade de tempo liberado), já em 1996, saídas pouco ortodoxas contra o desemprego, como a redução radical da jornada de trabalho e o aumento dos investimentos públicos. Numa alusão à possibilidade de tomar do capital, e usar em benefício da sociedade, os benefícios do progresso tecnológico, ele frisa que "as alavancas de uma emancipação coletiva e individual já existem". Num ensaio (Basta de Mediocridade) produzido pouco antes de sua morte, o filósofo Cornelius Castoriadis saúda os primeiros questionamentos à ditadura dos mercados -- mas adverte que "a liberdade é difícil" e debate os impasses da democracia e do invidivualismo. Já René Passet rebate as tentativas de reduzir os direitos previdenciários com uma proposta desconcertante. Ele defende, em Uma reforma radical da Previdência, a instituição de um salário universal, pago independentemente de trabalho a todos os cidadãos, para permitir que se apropriem de parte da riqueza gerada coletivamente e garantir a satisfação de suas necessidades básicas.

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Do Canal do Panamá ao subcomandante Marcos

Rejeitar a superficialidade e o sensacionalismo, examinar em todos os detalhes as grandes tendências da conjuntura internacional sempre foram marcas registradas do "Diplô". O bloco dedicado a este tema no número zero da edição brasileira chama atenção por sua atualidade e relevância. A devolução do Canal do Panamá pelos EUA, anunciada para 31 de dezembro, é analisada por Maurice Lemoine. Envido ao país caribenho, ele que observou de perto a presença massacrante de empresas multinacionais na área que será agora abandonada pelos norte-americanos, e discorre sobre as prerrogativas que estes conservarão - entre elas, a de intervir unilateralmente na região, se considerarem que sua "neutralidade" está em perigo. Num diálogo (Chegou a hora da sociedade civil) com o escritor espanhol Manuel Montalbán, o subcomandante Marcos expõe, com clareza e humor, suas idéias sobre como perseguir a transformação social num mundo em que "a evolução tecnológica, a mutação econômica e a mudança sociológica estão alterando tudo", e no qual, segundo ele, "o raciocínio político da esquerda tradicional não está preparado para compreender o momento histórico contemporâneo".

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Irã segue os aiatolás; a "terceira via" cultua outro deus

Eric Rouleau, um antigo embaixador francês, conta (No Irã, islã contra islã) o que está por trás da disputa entre o presidente iraniano Mohamed Khatami, "reformador" e aparentemente popular, e o clero, que não quer perder os poderes conquistados na revolução de Khomeini. Claramente simpático a Khatami, Rouleau não deixa de admirar, contudo, certas conquistas do regime islâmico, como a redução drástica do analfabetismo, a extensão do ensino público para todos e a multiplicação por dez do número de estudantes universitários. Por fim, José Vidal Beneyto analisa, em Social-democracia privatizada, o Manifesto da Terceira Via, lançado por Tony Blair e Gerhard Schroder e tão admirado por FHC. Beneyto vê no documento o sinal mais importante de que os social-democratas abandonaram o Estado do bem-estar social, e se converteram à religião neoliberal.

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Sociedade, Cultura, Mídia e Ciência

Compõem o terceiro bloco do "Diplô" artigos que debatem as transformações mais recentes nos terrenos da Sociedade e da Cultura, as possibilidades que elas abrem e as ameaças que representam. François Dufour, porta-voz da Confederação Camponesa da França, aponta, em Os cientistas loucos da agroindústria, a relação entre a contaminação de alimentos e o uso de tecnologias desenvolvidas com objetivo essencial de ampliar o lucro das grandes corporações do agronegócio. Ele refere-se aos transgênicos, ao uso maciço de antibióticos na pecuária ("o objetivo não é mais cuidar do animal, mas obter ganhos de peso artificiais") e à liberação do uso de todo tipo de farinhas (inclusive de cadáveres) na alimentação do gado, que pode ter provocado a "síndrome da vaca louca". Jean-Paul Maréchal destaca (A biodiversidade transformada em mercadoria) as enormes possibilidades abertas pelo avanço da biotecnologia. Em contrapartida, denuncia o roubo de espécies e de técnicas agrícolas milenares do terceiro mundo por um punhado de empresas bilionárias. Mostra que a pretensão atual destas multinacionais é garantir o patenteamento dos seres vivos e sugere, como alternativa, a luta para transformar o patrimônio genético em propriedade coletiva da humanidade. Ivan Illich condena, em A obsessão da saúde perfeita, a mercantilização da medicina, e ironiza: "quanto maior a oferta de saúde, mais as pessoas crêem que têm problemas, necessidades, doenças. Elas exigem que o progresso supere a velhice, a dor e a morte. Isso equivale à própria negação da condição humana".

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Mídia, conformismo e dissidência

Duas matérias sobre os impasses da comunicação e do jornalismo fecham o número zero do "Diplô". Em Apocalipse das mídias, Ignacio Ramonet chama a atenção para as possibilidades fantásticas abertas pelo progresso técnico ("Em 30 anos, o mundo produziu mais informação que no curso dos 5 mil anos precedentes") Mas lamenta: "Junto com o ar e a água", a informação "é hoje o elemento mais abundante do planeta. Está cada vez menos cara, mas (como a ar e a água...) cada vez mais poluída e contaminada". Ramonet conclui: "Durante muito tempo a comunicação libertou, porque significava difusão do saber, do conhecimento, das leis e das luzes da razão contra as superstições e os obscurantismos de todo tipo. Agora, impondo-se como obrigação absoluta, inundando todos os aspectos da vida social, política, econômica e cultural, ela exerce uma espécie de tirania. E tende a tornar-se uma das grandes superstições de nosso tempo". Quem oferece uma alternativa é Serge Halimi. O texto Contra o jornalismo de mercado, incentivar a dissidência resume sua intervenção num debate entre as redações do "Diplô" e do "Financial Times", realizado em 1997, em Londres. Num mundo "onde 358 bilionários detêm mais da metade de toda a riqueza da população do planeta", e onde "o dinheiro domina o sistema político a ponto de ambos se confundirem", caberia aos jornalistas e intelectuais "reinventar a dissidência". Halimi reconhece que nem todos os colegas estarão dispostos a tanto, pois alguns "já pertencem à classe dominante tanto ou mais do que as próprias elites do mundo dos negócios"...

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Inteligência, amiga da arte

Uma reprodução do quadro "Abaporu", de Tarsila do Amaral, destaca-se na página de abertura do "Diplô" versão internet. "Abaporu" é também o nome da sociedade civil que edita o jornal no Brasil - mas a imagem será substituída já em fevereiro. Criado pela artista gráfica Tereza Loparic, o projeto do site prevê homenagear, a cada edição, uma obra de arte. Os demais elementos - logomarca do jornal e botões que dão acesso às matérias e a outros textos - permanecerão, para preservar a identidade gráfica da publicação eletrônica. Outra marca da edição brasileira é o esforço para facilitar ao máximo a leitura dos artigos. Também aqui a solução é inovadora: ela procura combinar a facilidade de acesso que a internet proporciona com as vantagens inegáveis da leitura em página de papel. Quando o leitor selecionar um texto, a partir do índice ou das chamadas na página de entrada, uma nova "janela" do programa de navegação vai se abrir. Nela aparecerá a matéria. A diagramação é inovadora inclusive em relação ao original francês. Além de privilegiar elementos como os intertítulos e as chamadas laterais, ela deixa, na margem esquerda do papel, espaço para as anotações de quem lê. Uma outra novidade é um índice de toda a edição, embutido discretamente no alto de cada página. Através dele, é possível navegar com rapidez por todo o jornal.

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Um projeto que levaremos adiante juntos

Detentora dos direitos de republicação do "Diplô" no Brasil, constituída por jornalistas de diversas partes do país, a Abaporu quer envolver um grande número de pessoas no esforço de consolidar o projeto. Algumas das formas de participação estão indicadas no site. Já é possível, por exemplo, fazer assinaturas e acertar a reprodução parcial do jornal em publicações dos movimentos sociais. Outras alternativas estão em estudo, e você pode colaborar com sugestões. A Resenha da Internet, que lançou há quase dois anos a idéia da edição brasileira, fecha o ano com um motivo a mais para comemorar. Tin-tin! Ela voltará em janeiro, agora com mais força para ajudar a reconstruir uma imprensa independente no Brasil. Bom fim de ano. Ao erguer um brinde, durante as festas, lembre-se: o pior passou; já há espaço para refazer os sonhos. Quando o século 20 chegar ao fim, daqui a um ano, vamos lembrar suas tantas tragédias e decepções -- mas saudaremos também a brecha de esperança que ele abriu, em seu último suspiro. Valeu lutar. Valerão bem mais as lutas que virão.