Quinta, 14 de outubro de 99

FINANÇAS GLOBAIS

Uma crise que não terminou

Novas turbulências agitaram ontem os mercados financeiros internacionais. Uma nova queda na bolsa de valores de Nova York, provocada pelo temor de alta nas taxas de juros e pela perspectiva de redução nos lucros das grandes empresas, espalhou pessimismo e prejuízos por todo o mundo. Os mercados de câmbio também foram sacudidos. No Brasil, por exemplo, o dólar chegou a R$ 1,96 (a cotação mais alta desde 8 de março), em parte porque as incertezas da economia internacional levam alguns investidores a procurar, mais uma vez, refúgio em aplicações consideradas mais seguras. Que está por trás de tantos sobressaltos? O Brasil deve continuar atado a mercados financeiros tão instáveis? Preocupada com o exame da globalização, a Resenha acompanha este tema há muito. Em 28/9, uma edição experimental preparatória para o lançamento do novo site do boletim tratou do tema. Como foi vista por um número reduzidíssimo de leitores, e como o tema é da maior importância, está reproduzida abaixo, para que você tenha a conhecê-la.

FINANÇAS GLOBAIS 2

A maldição da bolha

Neoliberal até a medula, mas inteligente, sofisticada e acima de tudo bem-informadíssima, a revista britânica "The Economist" estampa esta semana um editorial que vai dar calafrios em que ainda aposta na estabilidade da economia mundial. A publicação do artigo coincide com o início de uma nova onda de turbulências nos mercados financeiros, e com a assembléia-geral conjunta do FMI e do Banco Mundial, em Washington. A conclusão geral é gravíssima. "Melhor será se estivermos errados", diz a revista. Mas tudo indica, segundo ela, que a economia norte-americana "ainda se parece horrivelmente com bolha"; que "é pouco provável" que ela se esvazie suavemente; e que "um colapso em Wall Street continua sendo a maior ameaça à economia mundial".

FINANÇAS GLOBAIS 3

Temerária euforia

O editorial interpreta de modo dramático a redução das taxas de juros norte-americanas, iniciada em abril de 98. Considerado por todos um dos lances mais decisivos na luta contra um novo crash dos mercados financeiros mundiais, o movimento é visto até hoje como uma decisão acertada. Ao adotá-la, o FED (banco central dos EUA) estimulou o consumo das empresas e das famílias em seu país e reanimou a bolsa de valores de Nova York. Reaquecida, a economia ampliou as importações que ajudaram a Ásia a se recuperar das crises cambiais de 97. Além disso, a queda dos juros nos Estados Unidos estimulou investidores de todo o mundo a voltar aos chamados "mercados emergentes". "The Economist" argumenta que foi um êxito fugaz. A "bolha especulativa" teria se tornado ainda maior. A revista alerta: "a história mostra que (...) quanto maior a bolha, maiores são os excessos que ela cria na economia - e maior o estrago, quando estoura".

FINANÇAS GLOBAIS 4

Um desajuste profundo

Um ano e meio após a queda dos juros, todos os indicadores econômicos mais importantes revelariam que a recuperação não se sustenta. O déficit comercial dos EUA está se aproximando dos 300 bilhões de dólares ao ano. Os consumidores e as empresas aproveitaram o dinheiro barato para fazer "empréstimos desenfreados". O endividamento do setor privado chegou a 5% do PIB, contra um máximo de 1% nos cinqüenta anos anteriores. As ações das empresas subiram, mas a alta estaria relacionada a outro fenômeno perverso. Ao baixar os juros, no momento em que havia ameaça da bolsa despencar, e ao não elevá-los mais tarde, quando Wall Street voltou a registrar ganhos, o FED teria incentivado os investidores a correr riscos cada vez maiores e mais irresponsáveis.

FINANÇAS GLOBAIS 5

Pendurados no nada

Num instante em que se agravam os sinais de vulnerabilidade da economia brasileira, e em que ressurge o debate sobre os rumos do país, o editorial é estímulo para considerar alternativas não-convencionais. Desde o início do ano, o Brasil está submetido a um conjunto de medidas econômicas que multiplica o desemprego e a miséria, desmonta os instrumentos que o Estado teria para promover o progresso e promove desnacionalização acelerada do país. Ao impor tais decisões, o governo argumentou que a sociedade precisava aceitar um "ajuste", para tirar proveito das possibilidades abertas pela economia global. Por isso mesmo, todas as esperanças da política oficial repousam sobre um eventual sucesso das exportações. "The Economist" lembra agora que os desajustes da economia mundial são profundos gravíssimos: o próprio banco central dos EUA está "preso na armadilha da bolha"; as chances de evitar um grande crash global repousam em ações incertas que poderiam ser adotadas na Europa e no Japão; e o risco de "um tombo feio" na economia mundial é "enorme". Em outras palavras, o Brasil estaria fazendo enormes sacrifícios para... mergulhar numa crise ainda mais grave. Não é motivo mais que suficiente para uma ruptura?




Este é o boletim de atualização da Resenha da Internet