Fora dos trilhos

Como o corte de investimentos, decretado pelo governo Covas, e o descaso com a manutenção ameaçam sucatear o Metrô de São Paulo, até há poucos anos um dos mais eficientes do mundo

Gisela Mendonça*,
especial para a Resenha da Internet


No último dia 18, o descarrilamento de uma composição interrompeu por mais de 24 horas a circulação do Metrô de São Paulo em todo o trecho Norte da linha Norte-Sul. Foi o primeiro acidente sério, em mais de vinte anos de operação comercial. Não houve vítimas, porque o trem estava em baixa velocidade, próximo de uma estação. Em condições menos favoráveis, ninguém sabe quais teriam sido as conseqüências. A Companhia do Metropolitano, que opera o serviço tentou a todo custo desvincular o desastre do processo de degradação vivido pelo Metrô. Mas é difícil encobrir fatos que saltam aos olhos.

No dia primeiro de abril de 99, o Diário Oficial do Estado publicou os cortes no orçamento de São Paulo, determinados pelo governador Mário Covas. A medida atingia inclusive as áreas de Educação, Saúde e Habitação, que tiveram seus orçamentos diminuídos em média em 10%. A secretaria dos Transportes Metropolitanos, na qual se inclui o Metrô, não ficou de fora – o setor passou a contar com R$ 400 mil a menos no seu já magro orçamento.

Há cerca de um ano e meio, o processo de manutenção de trens foi alterado. Deixou de ser feita a revisão geral, na qual o trem era desmontado, completamente checado e remontado

Há dez anos, quando a extensão das linhas era menor, a Companhia empregava 10 mil funcionários. Atualmente, o número é de 7.400. Só este mês, deixaram a empresa 730 funcionários, técnicos antigos, principalmente da área de planejamento e obras, em um Plano de Demissão Voluntária promovido pelo Metrô, seguindo orientação do governo Covas de “enxugar” os gastos da empresa.

Apesar de ser impossível dizer por que um disco de freio se soltou da composição causando o acidente, sem dúvida a situação geral da empresa, e em especial da área de manutenção, tem ligação direta com o fato. Vejamos:

  1. Há cerca de um ano e meio, para atender o aumento da demanda, que exige que praticamente todas as composições estejam na linha, foi alterado o processo de manutenção dos trens. Deixou de ser feita a revisão geral, na qual o trem era desmontado, completamente checado e remontado, seguindo alto padrão de qualidade. Agora, a manutenção é feita por partes. O truck, conjunto no qual se localiza o disco de freio que se soltou, tem a revisão feita hoje em quatro dias, contra o período anterior de dez a quinze dias.

  2. Recentemente, funcionários da manutenção denunciaram ao Sindicato dos Metroviários que as pastilhas de freio estavam sendo reaproveitadas e que as peças estavam tendo sua vida útil prolongada como “medida de economia”.

  3. No seu processo de “reestruturação”, o Metrô tem promovido a transferência compulsória de funcionários da manutenção do período noturno para o diurno, para economizar no pagamento de adicional noturno (os metroviários conquistaram depois de muita luta o adicional noturno de 50% na campanha salarial de maio de 96). Essa medida tem conseqüências para o conforto dos usuários (as escadas rolantes, por exemplo, vivem paradas, em manutenção durante a operação comercial) e também, evidentemente, para a manutenção dos trens, já que é durante o horário não comercial que a manutenção principal é feita.

  4. Esse conjunto de problemas tem feito a qualidade do serviço cair – é comum chegarem ao sindicato queixas de usuários sobre bilheterias fechadas, falta de segurança, sucessivas paradas técnicas e trens superlotados.

O que tem elevado os custos do Metrô são os aumentos de tarifas, principalmente energia. Além disso, o desemprego galopante reduziu o número de passageiros

O Metrô de São Paulo hoje vive quase que exclusivamente do que arrecada com tarifas. Em agosto deste ano, elas sofreram aumento de 11,5%. Na época, o secretário dos Transportes Metropolitanos, Cláudio de Senna Frederico, afirmou que ele era devido ao aumento nos custos da empresa provocado pela reposição salarial de 3,88% conquistada na campanha salarial de maio deste ano. Mas um levantamento do Dieese mostra que de janeiro de 95 a julho de 99 as tarifas aumentaram 128,01%, contra 75,52% de reajuste salarial dos metroviários. Na verdade, o que tem elevado os custos do Metrô são os aumentos de tarifas que entram na composição dos gastos (principalmente energia). Além disso, o desemprego galopante reduziu o número de passageiros.

É comum chegarem ao sindicato queixas de usuários sobre bilheterias fechadas, falta de segurança, sucessivas paradas técnicas e trens superlotados

O Sindicato dos Metroviários já apresentou suas denúncias várias vezes ao presidente do Metrô e ao secretário dos Transportes Metropolitanos. Pretende agora lançar uma grande campanha em defesa do Metrô público, da qualidade dos serviços, pelo aumento do investimento no transporte público metropolitano e pela expansão da malha metroviária.